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emsaltosaltoss

26
Nov17

26.11.2012

emsaltosaltos

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São duas da manhã. E tenho medo. Muito medo. Fecho os olhos e não vejo nada. Mas se os abrir também não vejo. Está tudo escuro. Estou sentada onde nunca se devia sentar uma menina de vinte anos – cheia de sonhos e com a vida pela frente. Peço uma última vez para me levarem para casa e me deitarem na minha cama. Mas  dizem-me que não pode ser. Que vai ficar tudo bem. Que vai passar.

Mas a única coisa que passa repetidamente na minha cabeça são as palavras do médico, minutos antes: “esta mancha, vês esta mancha? É um tumor. E estas são as tuas costas”. Um T-U-M-O-R. A palavra repete-se e prolonga-se num eco desesperante. Fecharam-me naquela sala, na sala do chefe das urgências do São Teotónio, para me dizerem isto. Deram-me um copo de água antes. E agora estou tonta, muito tonta. Será que me deram calmantes? Não serviram de nada. Bati no médico. Um bofetão à séria. Pedem-me para ter calma. Mas eu não quero ter calma. O médico diz que eu tenho uma massa nas costas. Um tumor. E é por causa desse maldito que não me consigo levantar. Juro! Conseguisse levantar-me sozinha e já estava em casa. Dane-se se são duas da manhã ou se demoro quase uma hora a pé. Pudesse eu e iria. Está tudo escuro. Tenho medo, muito medo.

Dizem-me agora que vou para Coimbra, que têm de me preparar e que a ambulância está à minha espera. Mas eu não quero ir a lado nenhum. Não quero. Eu ontem fiz o jantar. Fiz. Para ele e para ela, para nós lá em casa... Fiz massa com carne. E só me doíam um bocadinho as costas. E só tropecei no passeio três vezes. E só estava cansada. Mas fiz. Fiz o jantar, arrumei a roupa e adormeci, como todas as noites. Não, eu não quero ir a lado nenhum. Choro e imploro, enquanto me furam as duas mãos e me ligam a uma série de tubos. Fica tudo escuro, ainda mais escuro. Falta-me o ar. Não quero. E tento gritar. Mas sei que não posso. Eu sei. Dói. Vestem-me um pijama aos ursos – só os da pediatria é que são do meu tamanho – e enfiam-me as minhas coisas todas num saco plástico. Pedem-me o telemóvel. Isso não dou. Arre que não dou. Quero-o como quero acreditar que não tenho nada. E que daqui a pouco acordo e está tudo bem, e são oito da manhã e vou para a aula de sociologia – o professor é chato, mas arre como gostava de ir à aula!

A ambulância está lá fora. Chove e está tanto frio. Enrolam-me em mantas, embora eu ache que uma constipação seria o menor dos problemas. Achei que iam comigo, mas fecham as portas. Não vejo ninguém a não ser um enfermeiro que me afaga a testa e me olha com pena. Desvio-lhe os olhos. Não tenha pena de mim, homem! Tenha pena de vocês, que assim que eu provar que estão enganados vão ter todos um processo. Vejo-o pela janela e ele diz-me que não o deixam ir. Diz que ligará à minha família – ainda bem que tratará disso, acho que julgariam todos que eu estaria bêbada às três da manhã a dizer tamanha barbaridade.

Entretanto, ligo à minha melhor amiga – a uma daquelas a quem se liga a qualquer hora. Ela está lá. Acorda assustada. Diz que vai ter comigo. Que já lá estará quando eu chegar. Mas está tudo tão escuro. A ambulância treme muito e estou enjoada. Deitaram-me e imobilizaram-me. Raios! Ainda podia muito bem sentar-me e sempre conversava com o enfermeiro. Tenho sono e tonturas. E não param de me enfiar coisas nas veias. Raios! Está tudo muito escuro.

São quatro da manhã. Há gritos e sangue e batas brancas por todo o lado. Raios! Tenho mesmo de ficar aqui? Pelos vistos até de manhã sim. Dizem-me que passarei o resto da noite na sala das urgências. E está tudo tão escuro. Tentam voltar a tirar-me o telemóvel. Dizem que são regras. Mas que regras? Regra deveria ser ninguém passar por isto. Ameaço levantar-me (ah, como se conseguisse) e o enfermeiro acalma-se. Tenho o telemóvel e em menos de nada tenho os meus avós e a minha melhor amiga comigo. Deram-me dois beijinhos e saíram. Regras, malditas regras.

Passaram-se exatamente quantas horas? Não faço ideia. Está tudo tão escuro. E continuo tão tonta. Acho que tenho vontade de fazer xixi, mas não sei bem. Em boa verdade não sei nada do que se passa do meu tórax para baixo. Sei que me riscaram as pernas há pouco com uma caneta – testes de sensibilidade, dizem eles – mas não senti nada. Só vi. Tenho fome. Isso consigo sentir. Mas não posso comer. Sou uma urgência, nunca se sabe. Raios! Sou uma urgência?

O diagnóstico chega depois de uma série de exames intermináveis. Máquinas confusas, luzes, barulhos e agulhas, muitas agulhas e muitos líquidos. Tumor na D7, com pressão medular e paralisia dos membros inferiores. É preciso operar. Já. Assim que possível. Ela não pode esperar. E enquanto procuro a minha calma nos olhos do médico, ele afaga-me a testa (farão todos isto?) e diz-me que fará tudo para que eu nunca mais me lembre deste dia – mal ele sabia como é tão impossível esquecer.

Continuo tonta. E está tudo cada vez mais escuro. Eles já aqui estão. Vejo-lhes o desespero no rosto. Mas sorrio-lhes. Para tristezas basto eu. Às oito da manhã de amanhã vou para o bloco. E depois disso tudo será uma incerteza. Pode escurecer para sempre. Digo-lhes que não os quero ver antes de descer, que fiquem em casa e que rezem por mim e pelos médicos – soube depois que foram para uma igreja, à procura de uma paz que era impossível chegar.

Tenho as costas geladas. Deve ser a sensação mais próxima de estar num talho. É tudo metálico. E frio. Sou transportada de uma plataforma para a outra em exercícios técnicos. Eu ainda posso mexer os braços, raios! Na parede há um relógio. 8h35. E na rádio toca a RFM – não me lembro de me terem perguntado as minhas preferências radiofónicas, mas acertaram em cheio. Os médicos têm toucas coloridas, e eu pensei que era só nos filmes. Enchem-me de tubos e coisas esquisitas. Medem-me a tensão vezes sem conta. Odeio. O meu médico chega. Aperta-me a mão e promete-me, num sorriso, o melhor. Sinto-me tão tonta. A enfermeira diz que é normal. E depois disso é tudo escuro. Tão escuro. Negro.

Ainda estou tonta, mas já está menos escuro. Estão a levar-me para algum lado. Vejo um corredor e pessoas. E adormeço outra vez. Eles estão aqui. E os médicos. Estão todos com bom ar. E vejo-lhes sorrisos e olhos de esperança. Já não está tudo tão escuro. Um ano, talvez dois. Agora ainda é tudo muito complicado e esperamos reduzir os danos ao máximo. É o médico que está a dizer isto – não é? Adormeço outra vez. Estou a comer um peixe esquisito. Tem muitas espinhas. E estou a comer deitada. Raios! Não dá jeito nenhum comer deitada. E tenho imensas ligaduras. E tubos. E um saco com sangue e coisas feias ao lado da cama. Não consigo mexer os braços. Explicam-me que estou dorida e que a operação foi muito complicada. Que perdi muito sangue e que a cicatriz será grande – a das costas ou a da alma? Dão-me a sopa. E um beijo na testa. 

Sou o mais parecido com uma múmia que já vi. Tenho as pernas ligadas até às ancas, no tronco um colete de ferros – literalmente de ferros – e na veia uma dose extra de medicação. Dizem que vai doer, mas que posso gritar. Não gritei. Só lágrimas. Algumas de dor, mas a maior parte de felicidade. Estou de pé. De pé. Igualzinha a uma múmia e com três enfermeiros (fossem eles giros) agarradinhos a mim. Estou de pé. Não os deixaram ficar para ver. Dizem que podia correr mal, que eu podia não conseguir ou sentir-me mal. Raios! Não se tira a possibilidade de partilhar isto.

Não pareço mais uma múmia. Mas ainda me agarram. Agora já não são os enfermeiros. Estão a ajudar-me a levantar da casa de banho - raios, se pensei que me levavam à casa de banho tão cedo! Tenho de lavar as mãos, sair daqui e percorrer os três metros que me separam da minha cama. Demoramos dez minutos. Deito-me e beijam-me a testa. Estão todos ali. Todos. E eu, neste momento, tenho a certeza de que a minha vida só começa agora.   

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