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Em Saltos Altos

16
Out17

Finalmente, choveu...!

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À hora a que vos escrevo este texto, já chove (pelo menos no Porto). Finalmente. Só me apetece chorar. Quis, mas não consegui dizer nada antes. Escrevi no meu facebook, mas nem encontrava as palavras certas para aqui. Queria dizer tanto e, ao mesmo tempo, não me apetecia dizer nada. 

Saí de Cinfães ao final da tarde, 18 horas mais coisa menos coisa. Na altura, já ardia na serra do Montemuro e já se ouvia dizer que ardia no Marco de Canaveses e no fundo do meu concelho. Liguei a alguns amigos e perguntei se havia estradas cortadas. Já lá vão uns anos apanhei um susto e tanto com o fogo na estrada. Não queria passar pelo mesmo. Não havia informações de nada. E fiz-me à estrada. Ventava muito e cheirava a queimado. Mas cheguei em segurança ao Porto. Fui jantar, arrumei os sacos e tudo me parecia normal. Até que liguei a televisão. E Portugal estava a arder. Foi como um murro no estômago. Petrifiquei no meu sofá. E fiquei ali até às 3 da manhã. Como se estar agarrada à televisão me fizesse mais perto dos que estavam a combater e dos que (tantos) estavam aflitos. Liguei aos meus. Não estavam em perigo, mas o fogo estava perto. Estavam assustados, como eu. Soube de amigos em pânico. Quis ajudá-los mas pouco ou nada podia fazer. Senti-me desesperada quando vi pessoas a pedirem socorro no mural de facebook. Estavam encurraladas. Só conseguiam pedir ajuda assim. E eu no meu sofá. Tive medo, muito medo. Lá fora havia um vento dantesco que não parava, e que nos fez pensar que raio de castigo é este. Mas quis ter fé. Fé que amanhã não acordasse com a notícia da maior tragédia de sempre. Rezei. Que era a única coisa que restava! 

Hoje liguei a televisão e já se contavam mais de 30 mortos. Soube logo que o número ainda estava aquém. Estava tudo ardido. As primeiras imagens eram impressionantes. Apeteceu-me chorar outra vez. Voltei a ligar aos meus. Felizmente, tudo bem ainda. Mas recebi fotos da minha terra. Não se via um palmo com o fumo. Quis ir a correr (mas eu sabia que devia manter-me em segurança e fazer o que fosse possível por cá). As imagens eram cada vez mais e piores. E então vem a revolta - que é sempre a última coisa que se quer sentir nestas alturas.  Continuo a achar que se podia ter feito mais e se podiam ter evitado algumas coisas. Continuo a achar que hoje se deviam ter fechado escolas e serviços todos e se deviam ter deixados as crianças (e as famílias) juntas, onde mais se sentem seguras. A limpeza das matas, os acessos e a mobilização de meios são questões para discutirmos depois. De nada adiantam agora. Sabemos que a prevenção FALHOU e que o combate não conseguiu dar resposta. Mas os responsáveis estão muito longe da frente de fogo. Provavelmente nunca a experimentaram. Ditam regras em gabinetes. E nós? Nós, povo? Porque ainda não estamos na rua? Porque não fazemos barulho? Só este ano já perdemos dezenas de vidas e hectares de património para o fogo. O que precisa de acontecer mais? Há quem tenha ficado vivo, mas tenha perdido tudo. Vamos ficar a assistir de camarote? Vamos para a rua porra! Vamos exigir medidas e querer ter direito a mais. Vamos cuidas dos feridos, fazer tudo o que for preciso, mas sobretudo (prevenir) e evitar mais e pior! 

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