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04
Out19

Carta aberta a um ex-amor (ou manual para sobreviver a um fim)

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Carta aberta a um ex-amor (ou manual para sobreviver a um fim)

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Meu querido ex-amor,

Não sei exatamente há quanto tempo deixei de te amar – ou se já deixei sequer, ou se vou deixar. Nem sei se o amor algum dia deixa de ser amor. Ou se um dia vou amar tanto alguém, tanto, que me faça achar que contigo não foi bem amor. Mas não é por isso que te escrevo.

Escrevo-te porque, se não há uma data em que deixei de te amar, há uma data em que decidi começar a deixar de amar-te. E essa data é hoje. Não, não foi há exatamente um ano trás. Suponho que seja o que estivesses a pensar. Não. É hoje. É – foi – a partir de hoje que decidi deixar de te amar. Porque nestas coisas, como quando decidimos começar uma dieta ou juntar dinheiro para um carro, há sempre um primeiro dia. Que nunca é quando nós planeamos. É quando acontece. Já planeie dezenas de vezes deixar de te amar. Todas as tentativas foram infrutíferas. E, por isso, não te levo a mal se achares que esta também será. Mas não será. Não será de todo. Porque – como em tudo na vida, e em especial no amor – as coisas não se planeiam. Sentem-se. Sabes?

E é estranho como, às vezes, só percebemos a dimensão de um amor quando deixamos de o amar – ou decidimos deixar. Quando olhamos para trás. Sem deixar de saber que o caminho é seguir em frente. Muitas vezes – se não sempre – é assim.  

Cruzei-me com o amor muito cedo – e não cedo demais. Fui muito amada – num carinho, dedicação e entrega imensos. Talvez também na imaturidade, futilidade e pirosice própria das nossas tenras idades. Mas amamo-nos – não amamos? Se amamos. Sobretudo na doença e na tristeza. Mas também na alegria e na saúde. Amamo-nos. E quando o amor faltou, apenas o chorei. Certa de que – afinal – não se ama apenas uma vez - e que o melhor esta(ria) sempre por vir. Achei-me leve sem amor – mas também levemente incompleta. Não o procurei, mas tropecei-lhe (tropecei-te) – à toa, numa definição e sentido de amor que até então não conhecia. Num vício, numa paixão, num querer sempre mais – como quem come quilos de chocolate, mesmo sabendo que vai engordar de seguida e não vai poder usar o biquíni preferido no verão. Mesmo assim. E seria isso também amor? Serias tu também amor?

Se tivesse de usar uma imagem para descrever o nosso amor seria uma montanha russa. Ora em cima, ora em baixo. Ora, vamos ser felizes para sempre, ora, desaparece-me da frente. Mas nunca – nunca – com uma ponta de dúvida em relação ao amor. Não até há um ano atrás. E até hoje. E, voltando às imagens, hoje olho para ti como para o meu vestido do baile de finalistas do secundário. Acho-o lindo, mágico, cheio de memórias incríveis, mas nem me serve, nem faz mais o meu estilo. Teria uma dificuldade imensa em livrar-me dele, mas nunca o voltaria a vestir. É como contigo. Despedir-me de ti – e do nosso amor – é duro. Mas também não o quero voltar a viver. Porque nada – nada nisto do amor! – é melhor à segunda que à primeira. Às vezes, em momentos de pouca lucidez, acho que sim. Que talvez se um dia nos encontrássemos mais adultos, mais sabedores e mais capazes, escreveríamos uma história do caraças? Mas sabes que mais! Não escrevíamos nada. Porque está escrito. Definitivamente escrito. Como estava há um ano atrás.

E, já agora, deixa-me falar-te sobre isso, para não me alongar demais. Há um ano atrás tu não me tiraste o tapete. Tu tiraste-me o chão e as paredes inteiros. Tiraste o que havia para tirar e mais um pouco. Tiraste de tal forma, que de ficar com tão pouco, fui obrigada a construir de novo. Ainda não acabei a construção. Vai a bom ritmo, mas tenho tido percalços na obra. Têm-me faltado forças. E isso não ajuda. Mas, dizia-te, obrigaste-me a reconstruir-me. Porque me obrigaste a questionar tudo. Os valores. As crenças. As certezas. A auto imagem. A aceitação. Às vezes ainda tenho cá dentro uma ponta de raiva. Outras vezes de tristeza. Às vezes só de saudade. Mas já nunca – isso nunca – uma réstia de incerteza ou de culpa. E, se alguém lesse esta carta, era nisto que queria que prendesse a atenção. Que pode ficar tudo, menos uma versão menor de nós. Nem minha, nem tua. Nem mais, nem menos do que éramos – e fomos.

Apaguei todos os textos que te tinha escrito. Como apaguei todas as fotografias e memórias nossas que encontrei. Como se, apagando tudo, te apagasse da minha vida. Assim, como quem bate a porta para ir embora uma última vez. Como quando o meu gato ficava a olhar para a porta a ver-te ir. Disse-lhe, desta vez, que não vinhas mais. Que sossegasse. E sossegou. Como se soubesse. Ele sabe sempre tudo.

Chorei. Chorei muito. Ainda hoje de manhã. E não tenho vergonha disso. Chorar é dizer que temos coração. E sentimentos. E amor. Chorei-te o tanto que achei que era preciso. Neste último ano. Até hoje. Até ao dia em que decidi deixar de te chorar – e de te amar.

O teu – o nosso – acidente, deixou (-nos) muitas cicatrizes. Umas no corpo. Algumas na alma. Marcas que disfarçam, mas não passam. Foram doze meses de lamber as feridas, de juntar os cacos, de arrumar o que ficou. Mas hoje, inevitavelmente hoje, depois de te ver, tive a certeza que este é tempo bastante para me resolver – afinal, um ano é muito tempo. Pelo menos é muito tempo nesta ânsia que tenho – sempre – de viver.

Digo-te hoje que o pior já passou. Passa sempre. Já amei tanto – tanto! – antes de ti. E passou. Porque eu decidi que passaria. Como decidi hoje. Passa sempre.

E, espero, que passes bem. Hoje e sempre. Nas tuas escolhas, decisões e projetos. Na tua vida – e no amor! E que, de todas as cartas que te escrevi, esta seja a que possas ler com o coração mais aberto. Porque não somos nada – absolutamente nada – sem amor.

 

Um beijo,

 

 

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