Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

emsaltosaltoss

21
Ago19

Querido avô,

emsaltosaltos

42_Fotor.jpg

Querido avô,

Eu nunca estive preparada para ver-te partir. Nem estou. Porque os heróis não partem, porra! Os heróis não partem. Os heróis sobem prédios, salvam gatos, atravessam a cidade a voar. Mas não partem. E tu eras o meu herói. Um herói do caraças. E não me deste tempo de te apresentar aos meus filhos. Possa avô! Tu sempre me disseste para ter calma com casamentos e responsabilidades, mas podias ter esperado por mim. Eu queria que fosses tu a contar-lhes as nossas histórias – agora vou contar-lhas eu. Todas. Queria que lhes tivesses ensinado o que era champarrion e que nunca os deixasses enganar as escolher as ervas boas e as más. Queria que os tivesses embalado, que te tivesses vestido com eles do que eles quisessem, e que lhes ensinasses a plantar feijão. Queria pelo menos que lhes tivesses visto o rosto e que dissesses – porque ias dizer – que eram lindos como a mãe. Queria – hoje – ficar outra vez na soleira da porta do corredor, a falar contigo antes de ir para a cama, porque tu dizias que isto do aquecimento global era mesmo perigoso, mas que o tempo nunca andava para trás, só para a frente. Pois é! Só anda mesmo para a frente... e o que vou fazer agora a tanto deste tempo sem ti? Tu já nem estás cá para me dizeres quando é que achas que vai acabar a greve dos motoristas, nem para dares palpites sobre se vamos ter um outono quente ou fresco. Como é que eu vou saber se me agasalho ou não? Tu já não estás cá. E é como se estivesses. É como se eu ainda pudesse ouvir a tua voz. Como se ainda te visse no teu lugar da mesa. Como se ainda soubesse de cor cada pecadinho teu. E às vezes tenho medo de me esquecer sabes? Quero ter fotografias tuas em casa. E aqui. E em todo o lado. Porque eu não me quero esquecer de como eras. Todo bonito e elegante. Um senhor. Não me quero esquecer, avô.

Nunca me quiseste ver no hospital quando eu lá estive. Nunca. E nem precisaste. Eu soube todos os dias que estavas comigo. E não deixaste que eu te visse uma última vez também. Tu sabes que nós – sim, porque eu sou tão feita de ti – nós, lidamos mal com essas coisas. Confiamos pouco em médicos e detestamos comprimidos. Nós somos iguais, avô. E tu sabias isso. Tu sabias – e dizias-me – que este mundo era finito. Que um dia inevitavelmente todos partiríamos. Mas não me disseste que tu também ias. Nunca me disseste. Porque os heróis não vão, avô. Os heróis ficam. E eu agora sinto que o mundo é grande demais para eu estar aqui sem ti. Sabes quando eu era bebe e me davas uvas ao teu calo no quintal? Eu queria-as hoje outra vez. E queria o teu colo. Mesmo que o meu tamanho já não o permita. Nós cabemos sempre nos braços de quem mais amamos. E de quem mais nos ama. E eu sei – sei, mesmo que as tuas palavras fossem sempre poucas – o quanto me amavas. E o quanto tinhas esperança em mim. E o quanto querias que eu chegasse longe. E eu vou chegar, avô. Eu vou chegar tão longe, tão longe... e depois vou mandar-te outra carta de lá. E vou contar-te dos sucessos que tive, e de como os teus conselhos foram fundamentais. Vou contar-te que fechei tantos negócios – como tu. E quando me disseram que levo jeito vou dizer-lhes que o herdei de ti. Porque nós somos iguais, avô. Nós somos iguais.

Só me pediste – durante anos e ainda a saúde te assistia tanto – que eu fosse sempre forte. 'Porque tu és Leitão. Nunca te esqueças. Tu és Leitão.' E esse peso - e esse orgulho - do nome que me deixaste será a minha força. 'Tens de ser forte!' Estou a sê-lo hoje, avô. Tanto quanto consigo. Todos aqui vão ficar bem. Eu prometo. E nós nunca falhamos as nossas promessas, pois não avô? Eu prometo.

Amo-te muito!

A tua neta,

 

A.L.

2 comentários

Comentar post

Sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Comentários recentes